Perecível ao tempo

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Ele gostava dela. Do sorriso, das tiradas cômicas, da vontade de mudar o mundo. E ele sabia que ela gostava dele também. Ela assistia os filmes que detestava, só porque ele amava. Passava o sábado inteiro em casa e deixava a maquiagem e o salto alto de lado (“prefiro você assim, só com a beleza natural”). O sentimento era recíproco, e eles sabiam. Até porque, sempre que podiam se declaravam. E foi por isso que terminaram. Ele fazia as coisas à moda antiga, enquanto ela optava pela tecnologia. Dele vinham os bilhetinhos escondidos no sapato, as flores roubadas de jardins, as cartas entregues na porta de casa pelo carteiro. Ela, mais prática, elogiava qualidades, postava fotos dos dois, dizia que sem ele não viveria… Um amor sem fim, devidamente publicado, curtido e compartilhado.

– E qual era o problema? – o amigo tentou entender.

– Ela gritava ao mundo o quanto me amava, e eu apenas sussurrava. Ela me amava por hashtags, enquanto eu ainda estava no papel.

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A gente volta e meia brinca que quando crescer vai querer ser deste ou daquele jeito (mais organizado, menos sedentário, mais estudioso…). A vida passa e quando percebemos já estamos crescidos, mas ainda desejamos ter hábitos diferentes dos atuais. Se sabemos o que queremos, porque simplesmente não mudamos e não passamos a ser da outra maneira?

A culpa provavelmente é da Segunda-Feira, aquela moça milagrosa, capaz de nos entregar a vida que sempre quisemos. Mais exercícios físicos, mais controle da alimentação, mais estudos… tudo fica nas costas da Segunda-Feira. O problema é que geralmente a Segunda-Feira demora a chegar. Pode se ausentar em mais de uma semana. E daí, aquilo que vai mudar a nossa vida fica à espera da milagreira, que nunca vem.

 

O futuro sempre chega a uma velocidade constante de 60 minutos por hora.

(Albert Einstein, cientista alemão)

 

 

Se a vida acontece sempre na mesma constante, porque não começar a materializar hoje mesmo os nossos planos? Recorrendo ao bordão marqueteiro, “a vida é agora“, então melhor começar os exercícios, a dieta, os estudos hoje, mesmo que seja domingo.

 

 

 

Ontem resolvi que ficaria uma semana sem entrar no Facebook. Percebi que a rede social tem tomado muito meu tempo. Imagino que 9 entre 10 pessoas já tenha pensado a mesma coisa. Mesmo assim, fiquei feliz de perceber que ao invés de estar rolando infinitamente a timeline e conferindo a cada meio segundo se uma nova notificação surgiu na minha página, aproveitei muito mais as últimas 24 horas. Se tempo é dinheiro, estava perdendo milhões todos os dias na frente da tela. Reclamo tanto da falta de tempo, que tinha me esquecido que é justamente isso que perco enquanto estou nos murais alheios.

Nessas 24 horas aproveitei pra assistir dois filmes (A morte num beijo – chato, 12 homens e uma sentença – muito legal), arrumar/limpar meu quarto, fazer as compras do mês (em dois mercados e no “sacolão” – comércio da prefeitura que vende apenas verduras, legumes e frutas), preparar um almoço pra mim e pro meu pai, ir no banco…

Gosto de Cinema, gosto de cozinhar, gosto de ter comida no armário e na geladeira e de ter dinheiro no bolso, então porque  diariamente tenho aberto mão disso tudo apenas para ficar imersa no mundo facebookiano, onde todos são perfeitos, baladeiros, atuantes socialmente, etc?

Acho que é hora de me desplugar mais e aproveitar o mundo lá fora…


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