Perecível ao tempo

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Ele gostava dela. Do sorriso, das tiradas cômicas, da vontade de mudar o mundo. E ele sabia que ela gostava dele também. Ela assistia os filmes que detestava, só porque ele amava. Passava o sábado inteiro em casa e deixava a maquiagem e o salto alto de lado (“prefiro você assim, só com a beleza natural”). O sentimento era recíproco, e eles sabiam. Até porque, sempre que podiam se declaravam. E foi por isso que terminaram. Ele fazia as coisas à moda antiga, enquanto ela optava pela tecnologia. Dele vinham os bilhetinhos escondidos no sapato, as flores roubadas de jardins, as cartas entregues na porta de casa pelo carteiro. Ela, mais prática, elogiava qualidades, postava fotos dos dois, dizia que sem ele não viveria… Um amor sem fim, devidamente publicado, curtido e compartilhado.

– E qual era o problema? – o amigo tentou entender.

– Ela gritava ao mundo o quanto me amava, e eu apenas sussurrava. Ela me amava por hashtags, enquanto eu ainda estava no papel.

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Ontem resolvi que ficaria uma semana sem entrar no Facebook. Percebi que a rede social tem tomado muito meu tempo. Imagino que 9 entre 10 pessoas já tenha pensado a mesma coisa. Mesmo assim, fiquei feliz de perceber que ao invés de estar rolando infinitamente a timeline e conferindo a cada meio segundo se uma nova notificação surgiu na minha página, aproveitei muito mais as últimas 24 horas. Se tempo é dinheiro, estava perdendo milhões todos os dias na frente da tela. Reclamo tanto da falta de tempo, que tinha me esquecido que é justamente isso que perco enquanto estou nos murais alheios.

Nessas 24 horas aproveitei pra assistir dois filmes (A morte num beijo – chato, 12 homens e uma sentença – muito legal), arrumar/limpar meu quarto, fazer as compras do mês (em dois mercados e no “sacolão” – comércio da prefeitura que vende apenas verduras, legumes e frutas), preparar um almoço pra mim e pro meu pai, ir no banco…

Gosto de Cinema, gosto de cozinhar, gosto de ter comida no armário e na geladeira e de ter dinheiro no bolso, então porque  diariamente tenho aberto mão disso tudo apenas para ficar imersa no mundo facebookiano, onde todos são perfeitos, baladeiros, atuantes socialmente, etc?

Acho que é hora de me desplugar mais e aproveitar o mundo lá fora…

Da nossa história, da nossa curta história juntos, o que me mais me chateou não foi o fato de você nunca ter retornado o telefonema que dei; nem o fato de você não ter respondido minhas mensagens no Facebook; não ter me chamado uma segunda vez pra ir no cinema ou ter mentido ao dizer que não iria naquela festa que você foi. Também não foi porque você não jogou nenhuma partida de futebol comigo no Playstation, quando me disse pra almoçar contigo num domingo. Nem foi o fato de me chamar pra tomar umas beras e me deixar do lado de fora da balada porque não chegamos a um acordo de qual lugar entrar. Muito menos foi por causa do dia que você mal me cumprimentou quando sua chefe estava por perto. O que mais me chateou foi que você disse, no fusca do seu amigo, que queria dormir ao meu lado escutando Beatles. Mas nós nunca mais escutamos Beatles juntos.


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