Perecível ao tempo

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Ailime Kamaia. Não bastava um nome complicado, minha mãe escolheu logo dois para batizar a segunda filha. “Aline? Maia?”. “Não! Ailime Kamaia!” Cansei de repetir a frase, assim como cansei de escutar a pergunta: “Mas o que significa?”.

Então, Ailime vem do francês, deriva de Aimeé e significa amada. Já Kamaia vem do ianomâmi e ainda não descobri o que quer dizer, apesar de já ter pesquisado bastante o significado. Essa é a resposta padrão para a pergunta que tanto escuto, mas com certeza posso alongá-la e completar a explicação.

“Na verdade não era pra eu me chamar Ailime Kamaia, e sim, Arima Kamaia. Arima também é ianomâmi. Mas a minha mãe esqueceu esse nome e em cima da hora lembrou-se do nome de uma modelo francesa, Ailime. Quem acabou com o nome de Arima foi a minha irmã mais nova, Arima Dandara”.

Nesse momento começo a discorrer sobre os significados do nome da minha irmã mais nova, depois pulo para o nome da mais velha, Maria Anahi. Por fim, falo de Rich-Nei (filho), meu irmão. Sim, é uma conversa, que muitas vezes se pretendia introdutória,  termina sendo longa. Mas garante a alegria de muitos ouvintes, posso afirmar.

As pessoas gostam de conhecer tipos com nomes incomuns. Tenho uma amiga que faz questão de pronunciar meu nome completo toda vez que me apresenta a algum conhecido. Ela se vangloria de ter uma colega chamada “Ailime Kamaia”.

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Olhares curiosos se voltam para mim quando pronuncio meu nome. Já estou mais do que acostumada a ter que soletrá-lo, a enunciá-lo pausadamente, a ser chamada de Aline ou Maia. Entendo todas essas pessoas, afinal houve um tempo em que nem eu mesma sabia falar Ailime.

Mas o fato de ser um nome um tanto diferente não impede que as pessoas tentem aprende-lo. Tudo é uma questão de hábito. As pessoas se acostumam a falar “Ailime Kamaia”, da mesma forma que se habituam a visitar a sogra. Nenhuma Ana Maria quer ser chamada de Mariana.

Meu nome é parte da minha identidade. Gosto de pensar que sou tão exótica, tão incomum quanto ele. Gosto de ser a única “Ailime Kamaia” porque gosto de me sentir única.

O documentarista Alan Berliner demonstrou a importância que um nome pode ter. Afinal, foi investigando “Alans Berliners” por aí que ele criou o argumento do seu documentário, “O som mais doce”. E o próprio título do audiovisual já deixa claro que não há palavra mais bonita para uma pessoa do que seu próprio nome. Sinais de egocentrismo? Prefiro pensar que não, que sejam sinais de amor-próprio apenas.

Não acho que o nome tenha o poder de determinar a vida de uma pessoa, mas a forma como essa pessoa se relaciona com sua alcunha ajuda a vislumbrar a personalidade dela.

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Ahhh. E como costuma acontecer com quem tem nomes compostos “estranhos”, sempre preciso explicar que Kamaia não é sobrenome. É nome, como o Maria, da tal Ana acima mencionada.

É, não é fácil ter um nome singular. É preciso paciência. É preciso aguentar piadinhas sem graça. É preciso soletrar tantas vezes quanto forem necessárias. Porém, é saber que você tem um nome único e que se alguém gritar na rua por você, vai ser só pra você.

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Se eu disser que a beleza importa, rapidamente alguém vai contra argumentar: “não, não podemos analisar só a aparência, precisamos nos aprofundar”.

Concordo que devemos  dar importância para a função e o interior das coisas/pessoas, porém qual é o papel da arte? Para mim é o de ser belo.

Com tantas coisas feias a nos rodear, gostamos de ter elementos capazes de tornar mais bonita a nossa vida. Muitas vezes, o que é belo não precisa ter nenhuma função prática. Ser belo, já basta.

Porém, em busca de um “aprofundamento” das coisas, abrimos mão da beleza para não parecermos superficiais. Mas a beleza continua valendo a pena. Afinal, não são tão felizes os momentos em que podemos parar tudo e apenas contemplar algo que nos encante? A vista do horizonte que o cume proporciona não é o objetivo de qualquer montanhista? Não nos sentimos incomodados quando vivemos em uma casa que não nos agrada?

Sim, a beleza, ou melhor, a busca pela beleza está em tantas partes, então porque negar sua importância?

Filósofos argumentaram que, através da percepção da beleza, moldamos o mundo como um lar.

[Roger Scruton, filósofo]

No documentário abaixo, Roger Scruton fala sobre beleza, amor, arte, o sagrado… Material interessante para ver e debater!

Bom, não concordo com tudo que o filósofo apresenta. Acho ele um tanto radical e com uma visão muito “tradicional” sobre arte/beleza. Mas a discussão vale a pena!

Outro que deu seu pitaco sobre o assunto foi o irlandês Oscar Wilde, e é com uma frase dele (presente no livro “O Retrato de Dorian Gray“) que encerro o post, desejando que todos consigam buscar a beleza no seu dia a dia.

As pessoas dizem as vezes que a beleza é superficial. Pode ser que seja. Mas, pelo menos, não é tão superficial quanto o pensamento. Para mim, a beleza é a maravilha das maravilhas. São apenas as pessoas superficiais que não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, não o invisível.

[Oscar Wilde, escritor, dramaturgo e poeta]


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