Perecível ao tempo

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Hoje quando sai do trabalho vi um garoto bem vestido, sentado na calçada em frente à portaria de um prédio do centro de Curitiba. Ele estava acompanhado. O senhor ao seu lado vestia roupas surrados e estava com um prato cheio de comida. Conversavam e riam. Olhei pros dois e pensei sobre os (prováveis) diferentes estilos de vida que cada um levaria. Imagino que o garoto tenha dado o prato de comida para o senhor, morador de rua. Mas vendo os dois sentados no chão e conversando despreocupados, o que se destacava na cena era a alegria do momento. Nem as circunstâncias da vida de cada um, nem o motivo de aproximação dos dois pareciam ser importantes naquele momento.

Quem transita pelo centro de Curitiba já está acostumado com o som de flautas sendo tocadas nas praças mais movimentadas. Um dia, à caminho do inglês, seis da tarde de um dia nublado, vi duas mulheres dançando na Rui Barbosa. Ao lado, os músicos e a plateia. Fiquei com vontade de abandonar o verbo to be e fazer com que as duas dançarinas passassem a ser três.

O vídeo está no ar há cinco meses, mas só hoje vi. Uma mulher faz com que a espera do ônibus seja mais feliz.

 

 

Bom, esse último caso não aconteceu no Brasil, mas se você fizer uma pesquisa rápida no Youtube, verá que são muitos os dançarinos e dançarinas nas paradas (ou que dançam já dentro do ônibus).

Enfim, todo esse texto pra falar: sempre tem alguém reclamando que falta amor, alegria, compaixão, generosidade e cia. nas grandes cidades, mas talvez o que esteja faltando seja o olhar atento para ver coisas boas acontecendo ao nosso redor.

 

 

 

 

 

Para ler escutando:

 

 

Ambiente à meia luz. Ao fundo, casais dançam tango. Vinho. O sotaque argentino, que não é dos mais bonitos, sendo dito ao pé do ouvido. Ensino algumas palavras em português. Trocamos olhares maliciosos. Rimos.

Más vino, por favor!

Os casais passam a dançar mais lentamente, pra acompanhar o ritmo da música. O joelho de um esbarra no do outro sem querer. Mais palavras em espanhol, e dessa vez o sotaque argentino parece um pouco mais simpático. Uma franja que cobre parte do rosto é empurrada delicadamente para a lateral. Um comentário sarcástico traz mais risadas à mesa.

Mozo, otra botella de vino.

Esquecemos do português. Agora o sotaque argentino, cheio de chiados, parece mais melódico. A mão de um esbarra na do outro intencionalmente. Já não sabemos o que os casais dançam (ainda há casais dançando?). A reprodução de um coração humano enorme faz parte da decoração e torna o lugar ainda mais exótico.

Suspiros.

Joelhos se esbarrando novamente.

A luz se torna um pouco mais intensa e garçons passam a colocar cadeiras empilhadas sobre as mesas. Percebemos que é hora de partir.

O ar fresco do lado de fora do restaurante parece nos envolver. Sentamos no meio-fio à espera de um ônibus. A essas horas, até as calçadas cobertas de folhas são lindas.

Vinte, trinta minutos depois chega o coletivo.

O efeito do vinho vai passando. Aos poucos, a estranha luz do ônibus realça suas feições. Percebo seu cabelo um tanto oleoso. De repente, me dou conta que estou mais perto do seu corpo do que deveria estar. Me afasto, e as risadas passam a ser mais contidas. Uma rápida e nova olhada ao seu rosto me faz perceber um nariz um tanto desproporcional. Conforme o ônibus nos leva para um ponto mais distante do centro da cidade me dou conta que o Homem não passa de um garoto. É dois anos mais novo que eu.

Desço do ônibus. E agradeço por não ter me deixado levar pelos devaneios etílicos, o tango e a atmosfera sedutora de Buenos Aires.

 

 

 

Saberia pular corda, rebolar e fazer charme. Tudo ao mesmo tempo.

Seria cheerleader, dessas que fazem mil piruetas.

Entraria pro New York City Ballet.

E faria um clipe bem legal.

 

 

Vi no Verdades Particulares de um caderno sem linhas

 

 


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