Perecível ao tempo

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Há umas duas semanas atrás estive na Argentina, conhecendo um pouquinho da região “misionera”. Ao saberem que eu era brasileira, uns três argentinos perguntaram se eu já tinha visto “a propaganda da Personal”. A companhia telefônica fez um comercial mostrando um hermano pensando que sabe falar português.

A propaganda é engraçada, especialmente pra quem entende espanhol.

 

 

Assim como nuestros hermanos pensam que pra falar português basta acrescentar “ção” e “inho” no final das palavras, tem muito brasileiro achando que pra falar espanhol é só adicionar um “ito” e “ción” no final, transformando tudo em hotelito, pãozito, coración e companhia… É claro que o resultado de tudo isso é o mais autêntico portunhol!

A criatividade dos argentinos no mundo publicitário não para aí, no Buenos Aires Para Chicas a Amanda Mormito listou outras 10 propagandas argentinas bem boladas. Mesmo sem saber espanhol, vale a pena assistir cada uma!

 

 

 

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Para ler escutando:

 

 

Ambiente à meia luz. Ao fundo, casais dançam tango. Vinho. O sotaque argentino, que não é dos mais bonitos, sendo dito ao pé do ouvido. Ensino algumas palavras em português. Trocamos olhares maliciosos. Rimos.

Más vino, por favor!

Os casais passam a dançar mais lentamente, pra acompanhar o ritmo da música. O joelho de um esbarra no do outro sem querer. Mais palavras em espanhol, e dessa vez o sotaque argentino parece um pouco mais simpático. Uma franja que cobre parte do rosto é empurrada delicadamente para a lateral. Um comentário sarcástico traz mais risadas à mesa.

Mozo, otra botella de vino.

Esquecemos do português. Agora o sotaque argentino, cheio de chiados, parece mais melódico. A mão de um esbarra na do outro intencionalmente. Já não sabemos o que os casais dançam (ainda há casais dançando?). A reprodução de um coração humano enorme faz parte da decoração e torna o lugar ainda mais exótico.

Suspiros.

Joelhos se esbarrando novamente.

A luz se torna um pouco mais intensa e garçons passam a colocar cadeiras empilhadas sobre as mesas. Percebemos que é hora de partir.

O ar fresco do lado de fora do restaurante parece nos envolver. Sentamos no meio-fio à espera de um ônibus. A essas horas, até as calçadas cobertas de folhas são lindas.

Vinte, trinta minutos depois chega o coletivo.

O efeito do vinho vai passando. Aos poucos, a estranha luz do ônibus realça suas feições. Percebo seu cabelo um tanto oleoso. De repente, me dou conta que estou mais perto do seu corpo do que deveria estar. Me afasto, e as risadas passam a ser mais contidas. Uma rápida e nova olhada ao seu rosto me faz perceber um nariz um tanto desproporcional. Conforme o ônibus nos leva para um ponto mais distante do centro da cidade me dou conta que o Homem não passa de um garoto. É dois anos mais novo que eu.

Desço do ônibus. E agradeço por não ter me deixado levar pelos devaneios etílicos, o tango e a atmosfera sedutora de Buenos Aires.

 

 

 

Passear pelas ruas da capital argentina é comprovar muitos dos clichês que existem a respeito do povo portenho. A fama de galanteadores, vaidosos, exagerados e apaixonados por futebol é verdadeira, porém existem outras verdades a respeito de nossos vizinhos. Simpáticos e muito receptivos com os brasileiros, é difícil entender porque nós, tupiniquins, temos tantas rixas com los hermanos.

Adoradores do mate, o nosso chimarrão, é comum ver homens e mulheres carregando suas garrafas e cuias para todos os lados. Uma ida ao Parque Lezama (no bairro de San Telmo) comprova que até numa sexta-feira ensolarada a bebida amarga é bem-vinda. Observando os freqüentadores do parque também é possível notar outra característica dos bonaerenses, o amor pelos cães. Muitos cachorros passeiam a vontade, sem coleiras ou focinheiras, e até os de raças grandes andam livremente pelas calles da cidade. E ninguém reclama. Buenos Aires deve ser a única cidade do mundo onde colocam cartazes de “cachorro encontrado”. Num deles, a pessoa que achou o cãozinho avisava o dono que o animal seria bem cuidado até que pudessem resgatá-lo.

Os passeios portenhos muitas vezes incluem uma parada em uma livraria ou sebo. Pode até não ser verdadeira a famosa afirmação de que “apenas a Avenida Corrientes conta com mais livrarias que o Brasil inteiro”, porém é fato que nesta grande avenida é possível encontrar centenas de opções. Uma simples caminhada pode durar horas na Avenida Corrientes, pois é difícil resistir à tentação de entrar nessas livrarias. E se você visitar várias delas, uma após a outra, perceberá que não é único, muitos portenhos estarão “te seguindo” e poderão ser vistos várias vezes folheando livros em distintas lojas. E a variedade não é apenas de livrarias, pois o local também concentra inúmeros teatros e casas de shows. Próxima à “avenida dos livros” está o El Ateneo Grand Splendid, na Avenida Santa Fe. Presença constante em listas de “livrarias mais belas do mundo”, como as publicadas pelo jornal britânico The Guardian e pela editora Lonely Planet, esta livraria surpreende pela história e arquitetura. O El Ateneo já foi teatro e ainda hoje possui palco e balcões. Atualmente onde ficava o palco existe um café, e os balcões são charmosas salas de leitura para os clientes. As colunas e a pintura no centro do teto costumam chamar a atenção de seus freqüentadores. Enquanto metade deles vasculham livros, a outra metade tira fotos do local.

Outro local imperdível na cidade é o bairro de Puerto Madero. Nem tanto pelos famosos restaurantes que ali se concentram, mas pelo passeio feito pelos portenhos na Costanera Sur. Dentro da reserva ecológica da Costanera é possível observar o Mar Del Plata, rio que banha Buenos Aires. Valem lembrar que a reserva não existia até pouco tempo atrás, o espaço sofreu um processo de aterramento e plantas e animais foram pra lá transportados. No trajeto que margeia a reserva vários carrinhos vendem bondiola e choripan. Adorado pelos locais, o primeiro é um sanduíche com fatias de carne de porco, já o segundo é de lingüiça. Condimentos e complementos são adicionados a gosto pelo cliente, em geral, as barraquinhas oferecem uma boa variedade e se come bem pagando pouco. Ainda em Puerto Madero existem dois parques chamados Mujeres Argentinas. Amplos e freqüentados quase que exclusivamente por portenhos, o gramado convida para um cochilo. Os mais curiosos podem aproveitar para observar pessoas praticando esportes, namorando, tomando banho de sol ou simplesmente mateando. As ruas do bairro são batizadas com nomes de importantes figuras femininas na história argentina.

Para quem gosta de museus a cidade também é um prato cheio, pois existem para todos os gostos. Boa parte da produção latinoamericana contemporânea de artes plásticas já passou ou está no MALBA (Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires). As exposições costumam invadir espaços inusitados do museu, como terraço, corredores e bancos (sim, estes bancos para as pessoas sentarem). O museu em si possui uma arquitetura diferenciada e vale alguns minutos de observação. A algumas quadras dali está o Museo Nacional de Bellas Artes, com um acervo totalmente distinto do acervo do MALBA. Neste espaço o clássico é quem toma conta do lugar. Grandes nomes da pintura e da escultura se fazem presentes através de suas obras. Quem disse que santo de casa não faz milagre? Em Buenos Aires faz, o segundo andar do prédio é dedicado quase que integralmente aos artistas argentinos. Outra sala interessante é a de arte pré-colombiana, que conta com peças de mais mil anos. A história de parte da América do Sul antes do período de colonização está ali, artefatos indígenas ajudam a contar a História. A visita fica mais interessante aos domingos, quando há visita guiada. Outro que conta com visitas guiadas e possui temática bem diferente dos anteriores é o Museo Nacional de La História Del Traje. Roupas femininas e masculinas de várias épocas ajudam a entender as mudanças culturais e econômicas vividas no mundo.

A discussão sobre mudanças sociais não fica restrita às salas do Museu do Traje, está presente nas ruas Buenos Aires, no dia a dia dos portenhos. Acostumados a exigirem que seus direitos como clientes e, principalmente, como cidadãos sejam respeitados, fica fácil entender porque um movimento como o Madres de La Plaza de Mayo existe nesta cidade. A maioria dos país da América do Sul viveu uma ditadura militar em um momento histórico próximo, porém as mães argentinas foram as únicas a terem coragem de reclamar publicamente pelos seus filhos desaparecidos. O ponto de encontro é a praça em frente à Casa Rosada, sede do governo da Argentina. O mal que acomete os brasileiros, a falta de memória, parece não existir nos nossos vizinhos, pois o movimento já tem mais de trinta anos e conta com o apoio maciço da população. Assim como a vaidade, os exageros na fala e no gestual e o amor pelo futebol, esse é mais um clichê comprovado sobre a figura dos argentinos, a politização da sociedade.


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