Perecível ao tempo

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Hoje quando sai do trabalho vi um garoto bem vestido, sentado na calçada em frente à portaria de um prédio do centro de Curitiba. Ele estava acompanhado. O senhor ao seu lado vestia roupas surrados e estava com um prato cheio de comida. Conversavam e riam. Olhei pros dois e pensei sobre os (prováveis) diferentes estilos de vida que cada um levaria. Imagino que o garoto tenha dado o prato de comida para o senhor, morador de rua. Mas vendo os dois sentados no chão e conversando despreocupados, o que se destacava na cena era a alegria do momento. Nem as circunstâncias da vida de cada um, nem o motivo de aproximação dos dois pareciam ser importantes naquele momento.

Quem transita pelo centro de Curitiba já está acostumado com o som de flautas sendo tocadas nas praças mais movimentadas. Um dia, à caminho do inglês, seis da tarde de um dia nublado, vi duas mulheres dançando na Rui Barbosa. Ao lado, os músicos e a plateia. Fiquei com vontade de abandonar o verbo to be e fazer com que as duas dançarinas passassem a ser três.

O vídeo está no ar há cinco meses, mas só hoje vi. Uma mulher faz com que a espera do ônibus seja mais feliz.

 

 

Bom, esse último caso não aconteceu no Brasil, mas se você fizer uma pesquisa rápida no Youtube, verá que são muitos os dançarinos e dançarinas nas paradas (ou que dançam já dentro do ônibus).

Enfim, todo esse texto pra falar: sempre tem alguém reclamando que falta amor, alegria, compaixão, generosidade e cia. nas grandes cidades, mas talvez o que esteja faltando seja o olhar atento para ver coisas boas acontecendo ao nosso redor.

 

 

 

 

 

Ele gostava dela. Do sorriso, das tiradas cômicas, da vontade de mudar o mundo. E ele sabia que ela gostava dele também. Ela assistia os filmes que detestava, só porque ele amava. Passava o sábado inteiro em casa e deixava a maquiagem e o salto alto de lado (“prefiro você assim, só com a beleza natural”). O sentimento era recíproco, e eles sabiam. Até porque, sempre que podiam se declaravam. E foi por isso que terminaram. Ele fazia as coisas à moda antiga, enquanto ela optava pela tecnologia. Dele vinham os bilhetinhos escondidos no sapato, as flores roubadas de jardins, as cartas entregues na porta de casa pelo carteiro. Ela, mais prática, elogiava qualidades, postava fotos dos dois, dizia que sem ele não viveria… Um amor sem fim, devidamente publicado, curtido e compartilhado.

– E qual era o problema? – o amigo tentou entender.

– Ela gritava ao mundo o quanto me amava, e eu apenas sussurrava. Ela me amava por hashtags, enquanto eu ainda estava no papel.

Esperei meses pra que você lembrasse de dar um oi ou desejar bom dia. Isso não aconteceu. Te vi não rua, você não me viu. Não tive respostas para as perguntas que fiz. Mais de seis meses depois você sonha comigo, e o pior, acha que devo saber sobre isso. Não pergunte como estou e nem conte sobre o seu sonho, você me ignorou por tanto tempo, mas ainda sou capaz de querer te responder. E falar que senti saudades.

[Quando chegar a hora de partir, apenas saia andando calmamente e não faça confusão]

Banksy, Guerra e Spray – p 79

 

 

Eita, história que não acaba!

Baila!

Se for só isso

 

 

 

 

 

Toc.

Toc.

Toc.

Toc.

 

O taco da bota batendo na calçada, marcando o ritmo da minha caminhada. Olhar direita-esquerda, para depois atravessar. Do outro lado da rua, olhos que um dia fixaram-se em mim. Não posso seguir andando e trocar breves acenos com a cabeça, como se faz com conhecidos.

Mas, e se ele não parar? Não me contar sobre sua vida sem mim? Não falar sobre seus projetos, sonhos, pesadelos? E se eu não tiver a chance de dizer o que senti quando ele não cumpriu a promessa de ligar?

Talvez seja melhor assim, passar reto e trocar apenas um olhar…

 

 

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Lembro que quando nos conhecemos era uma noite quente. Eu estava de vestido amarelo, e você vestia amarelo também. Em tudo combinávamos, e a conversa parecia que nunca acabaria, porém, amanheceu e tivemos que partir para nossa vida de compromissos adultos. Talvez, tenha sido neste momento que começamos a terminar, mas eu não sabia, e voltei pra casa cantando.

 

Vishh, justo quando a vida parecia seguir em paz, entrei em uma quadrilha…

 

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

[Carlos Drummond de Andrade, QUADRILHA]

Dessa vez, sem jogos, sem paranoias, sem provocações. Só amor, por favor. Quero o mais simples que você tiver, um que não precise de manual de instruções, nem passo a passo. Um que seja fácil de obter sorrisos e palavras de carinho. Daqueles em que se esquece da hora do almoço e se come às duas, três da tarde. Aqueles que fazem a gente se perder em um olhar. Um que mesmo depois de acabado, faça restar a amizade, a confiança, o companheirismo. Dessa vez, sem subterfúgios, sem precisar mentir e dizer pro outro que tem mil compromissos. Me vê um amor sincero, desses que fazem sentir saudade, suspirar perdões, esbravejar palavras de incentivo. Que queira cuidar de mim, e por mim ser  cuidado. Um que me faça perder a noção de tudo, mas que me aproxime mais de mim mesma. Um amor sem guias, mapas ou bulas. Só amor, por favor.


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