Perecível ao tempo

Archive for the ‘cronicamente’ Category

Ele gostava dela. Do sorriso, das tiradas cômicas, da vontade de mudar o mundo. E ele sabia que ela gostava dele também. Ela assistia os filmes que detestava, só porque ele amava. Passava o sábado inteiro em casa e deixava a maquiagem e o salto alto de lado (“prefiro você assim, só com a beleza natural”). O sentimento era recíproco, e eles sabiam. Até porque, sempre que podiam se declaravam. E foi por isso que terminaram. Ele fazia as coisas à moda antiga, enquanto ela optava pela tecnologia. Dele vinham os bilhetinhos escondidos no sapato, as flores roubadas de jardins, as cartas entregues na porta de casa pelo carteiro. Ela, mais prática, elogiava qualidades, postava fotos dos dois, dizia que sem ele não viveria… Um amor sem fim, devidamente publicado, curtido e compartilhado.

– E qual era o problema? – o amigo tentou entender.

– Ela gritava ao mundo o quanto me amava, e eu apenas sussurrava. Ela me amava por hashtags, enquanto eu ainda estava no papel.

Sempre será o fruto do que se plantou, mas ao pensar em duas ou três decisões apressadas, não há como evitar pensar: o que seria do meu presente se eu tivesse feito um passado diferente?

Fazer uma escolha é abrir mão de todas as outras opções. Estaria tudo bem, se soubéssemos qual delas nos leva à felicidade!

Como a vida não é feita de certezas, só espero que seja intenso enquanto dure.

E que venham as boas colheitas. Para todos!

Foto de Ailime Kamaia - boas colheitas

Toc.

Toc.

Toc.

Toc.

 

O taco da bota batendo na calçada, marcando o ritmo da minha caminhada. Olhar direita-esquerda, para depois atravessar. Do outro lado da rua, olhos que um dia fixaram-se em mim. Não posso seguir andando e trocar breves acenos com a cabeça, como se faz com conhecidos.

Mas, e se ele não parar? Não me contar sobre sua vida sem mim? Não falar sobre seus projetos, sonhos, pesadelos? E se eu não tiver a chance de dizer o que senti quando ele não cumpriu a promessa de ligar?

Talvez seja melhor assim, passar reto e trocar apenas um olhar…

 

 

———————————————————————————————

Dez dias de descanso na casa da minha mãe. Férias após quatro anos de faculdade e muitas trocas de estágio. Almoços gostosos, jogos de tabuleiro com a família e… a triste constatação: o Google é mais esperto que meu irmão!

Entre uma partida e outra no PlayStation ele procura macetes para os jogos. Faz perguntas dignas de serem pronunciadas diante de um oráculo: “como ganhar mais pontos na etapa X?”,  “onde está a chave do nível Y?”, “porque aparece um quadrado na porta do castelo?”. Ou seja, ele espera que o site de buscas seja um conselheiro na sua luta por pontos, vidas extras e poderes especiais no mundo virtual. Se foi a ideia de que o site simplesmente apresenta resultados para as palavras-chaves digitadas, agora ele é quase um confidente que traz as respostas para os conflitos internos de cada um.

Além da respostas divinas, ainda é obrigação do Google fazer as correções de digitação, concordância e acentuação. O “você quis dizer” é quase mais clicado do que o ponto de interrogação. Todos os dias o Google ensina a garotos apressados e sedentos por dicas para video games como se escreve português.

É, e ainda tem gente que não acredita na superação da inteligência artificial…

 

 

 

 

Para ler escutando:

 

 

Ambiente à meia luz. Ao fundo, casais dançam tango. Vinho. O sotaque argentino, que não é dos mais bonitos, sendo dito ao pé do ouvido. Ensino algumas palavras em português. Trocamos olhares maliciosos. Rimos.

Más vino, por favor!

Os casais passam a dançar mais lentamente, pra acompanhar o ritmo da música. O joelho de um esbarra no do outro sem querer. Mais palavras em espanhol, e dessa vez o sotaque argentino parece um pouco mais simpático. Uma franja que cobre parte do rosto é empurrada delicadamente para a lateral. Um comentário sarcástico traz mais risadas à mesa.

Mozo, otra botella de vino.

Esquecemos do português. Agora o sotaque argentino, cheio de chiados, parece mais melódico. A mão de um esbarra na do outro intencionalmente. Já não sabemos o que os casais dançam (ainda há casais dançando?). A reprodução de um coração humano enorme faz parte da decoração e torna o lugar ainda mais exótico.

Suspiros.

Joelhos se esbarrando novamente.

A luz se torna um pouco mais intensa e garçons passam a colocar cadeiras empilhadas sobre as mesas. Percebemos que é hora de partir.

O ar fresco do lado de fora do restaurante parece nos envolver. Sentamos no meio-fio à espera de um ônibus. A essas horas, até as calçadas cobertas de folhas são lindas.

Vinte, trinta minutos depois chega o coletivo.

O efeito do vinho vai passando. Aos poucos, a estranha luz do ônibus realça suas feições. Percebo seu cabelo um tanto oleoso. De repente, me dou conta que estou mais perto do seu corpo do que deveria estar. Me afasto, e as risadas passam a ser mais contidas. Uma rápida e nova olhada ao seu rosto me faz perceber um nariz um tanto desproporcional. Conforme o ônibus nos leva para um ponto mais distante do centro da cidade me dou conta que o Homem não passa de um garoto. É dois anos mais novo que eu.

Desço do ônibus. E agradeço por não ter me deixado levar pelos devaneios etílicos, o tango e a atmosfera sedutora de Buenos Aires.

 

 

 

Dessa vez, sem jogos, sem paranoias, sem provocações. Só amor, por favor. Quero o mais simples que você tiver, um que não precise de manual de instruções, nem passo a passo. Um que seja fácil de obter sorrisos e palavras de carinho. Daqueles em que se esquece da hora do almoço e se come às duas, três da tarde. Aqueles que fazem a gente se perder em um olhar. Um que mesmo depois de acabado, faça restar a amizade, a confiança, o companheirismo. Dessa vez, sem subterfúgios, sem precisar mentir e dizer pro outro que tem mil compromissos. Me vê um amor sincero, desses que fazem sentir saudade, suspirar perdões, esbravejar palavras de incentivo. Que queira cuidar de mim, e por mim ser  cuidado. Um que me faça perder a noção de tudo, mas que me aproxime mais de mim mesma. Um amor sem guias, mapas ou bulas. Só amor, por favor.

A sua barba e a boina idênticas às de Che, a camisa amarela vinda de Cuba, os olhos verdes, as sardas e o sotaque chileno. Mais do que isso, o seu conhecimento sobre as fases da Lua, o horóscopo maia, o significado da base piramidal para diversos povos. Você cantando bossa nova, MPB, canções chilenas e de outros lugares mais dessa América do Sul. A flauta transversal de bambu sendo tocada às quatro da manhã, o cachorro quente comido às cinco e o beijo dado às seis.

Se nossa história juntos se resumir a isso, tudo bem, sei que foi uma bela história de amor.

 

 

 


%d blogueiros gostam disto: