Perecível ao tempo

Archive for agosto 2013

Ela prefere números, e eu as palavras. Meu lugar preferido é na rua, e o dela em casa. Eu brinco que ela é sensível demais, ela me chama de rude. Somos diferentes em tantas coisas, que às vezes me pergunto: como pode sobreviver essa amizade?

Claro que nem tudo é maravilha. E nem deveria ser, afinal, onde já se viu amizade de toda uma vida resistir sem brigas? E estas não faltaram! Já discutimos tanto, por tantos motivos bobos e até ficamos sem nos falar por alguns anos. Mas o mais importante é que nem foi preciso encontrar um sentido para voltar a conversar. Foi simples, foi necessário apenas nos perdoar.

Dizem que você só conhece bem alguém depois de comer um quilo de sal juntos. Hey, quantos salares medem a nossa amizade?

 

21 anos de brigas e brincadeiras

 

 

 

 

Sim, eu já parei. E quer saber o que eu andei pensando? Que essa história de “já parou pra pensar?” começou a cansar. Desde que a Cris Guerra “descobriu” a frase no finzinho de 2011, muita gente pensou em samplear a blogueira. Se em 2011 a provocação era original, agora virou lugar comum, empobrecendo a propaganda da recrutadora de recursos humanos, e texto de muita blogueira.

Quando a frase “surgiu”, seu propósito era inspirar a reflexão. Agora nem é preciso refletir, já que temos uma legião de pensadores apontando para todas as grandes revelações que ainda não nos demos conta. Dá pra soar de forma mais arrogante?

De tão repetida, logo a frase alcança o status de bordão. E quando repetimos um bordão, a gente faz tudo, menos pensar sobre ele.

 

 

 

Ele gostava dela. Do sorriso, das tiradas cômicas, da vontade de mudar o mundo. E ele sabia que ela gostava dele também. Ela assistia os filmes que detestava, só porque ele amava. Passava o sábado inteiro em casa e deixava a maquiagem e o salto alto de lado (“prefiro você assim, só com a beleza natural”). O sentimento era recíproco, e eles sabiam. Até porque, sempre que podiam se declaravam. E foi por isso que terminaram. Ele fazia as coisas à moda antiga, enquanto ela optava pela tecnologia. Dele vinham os bilhetinhos escondidos no sapato, as flores roubadas de jardins, as cartas entregues na porta de casa pelo carteiro. Ela, mais prática, elogiava qualidades, postava fotos dos dois, dizia que sem ele não viveria… Um amor sem fim, devidamente publicado, curtido e compartilhado.

– E qual era o problema? – o amigo tentou entender.

– Ela gritava ao mundo o quanto me amava, e eu apenas sussurrava. Ela me amava por hashtags, enquanto eu ainda estava no papel.


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