Perecível ao tempo

Archive for abril 2012

Ok, não deletei ontem meu perfil no Twitter. Ele ainda está lá, vivo. Inerte, mas vivo.

Resolvi retirar mais algumas coisas de lá antes de jogá-lo no buraco negro dos “Delete” que só a internet nos proporciona. Enquanto remexia o meu arquivo público de pensamentos e outras bobagens, fiquei feliz em encontrar uma troca de tweets com o jornalista Victor Folquening. Isso me deixou em dúvida sobre excluir meu perfil ou não, já que não posso mais trocar tweets com Victor ou travar nenhum tipo de conversa que não seja inventada por mim. Victor morreu no ano passado, atropelado por um biarticulado. Me desfazer do meu Twitter é me desfazer dessas e de outras conversas.

Ainda não decidi se aperto definitivamente o “Delete”, de qualquer forma, hoje resgato mais algumas bobagens dessa grande praça pública em que todos berram:

O melhor tempero que existe: a fome! Não há comida que não fique boa…

 

E um dia vc se dá conta q está dando bronca no seu pai porque ele não quer trazer a roupa suja pra lavar. É, vou tomar um Dreher!

 

Gente que parece ter medo de falar a palavra “negro” e fala “moreninho”. Não tolero.

 

Fiquei com vontade d ir numa festa infantil pra cantar músicas da Xuxa, d repente me dei conta q numa festa infantil vai tocar funk, ñ Xuxa!

 

“Dá um gole de água?”/ “Porquê?” – esse é meu pai…

 

Quando o povão dominar o Google+ vou falar que é o Goole Mais, mesmo, só pra ver os estressadinhos corrigindo “é Google Plus, é Google Plus”

 

Credo, nem seis horas da tarde e o céu me engana com cara de meia-noite!

 

Você sabe que 2012 tá chegando quando flagra o seu pai assistindo Casos de Família no meio da tarde

 

queria ir numa festa latina, mas sempre q falo isso o pessoal recomenda Taco, Mexicano e Zapata. Quero dançar e ñ comer nachos!

 

A arte de perder o mini papelzinho com o telefone do entrevistado!

 

paraguaio “be larga” eu “o q? é ve ou be?” paragua “ve” eu “ahhh! é be!” paragua “no, be!” coloco na matéria “a fonte ñ quis se identificar” #ailimedoportamala

 

Amou, amou, amou uma pessoa. Depois chorou, chorou, chorou por ela. Agora nem lembra mais o nome completo. Estranho isso, né?!

 

Você decide encarar formulário com milhões de perguntas. Demora hoooooras pra caprichar em todas as respostas. ENTER. Aparece “Erro”. ADORO!

 

Amanhã decido se deleto ou não o perfil.

Ao menos, o meu.

Depois da relutância em aderir ao Twitter, das tardes quase todas consumidas de olho na timeline, do afastamento devido à uma viagem um tanto longa, da diminuição no uso, agora chegou a hora de encerrar a minha vida como @aika_em.

O motivo é a saída de vários amigos do microblog e o aumento de imbecilidades postadas por lá, conforme escreveu Rosana Hermann em seu Querido Leitor.

Também queria encerrar essa vida virtual pós-Orkut, pré-Facebook. Sim, sei que são redes sociais diferentes, com objetivos diferentes, mas pra mim funcionou dessa forma. Só consigo me prender a uma rede social por vez, fazer o quê?

De qualquer forma, fiquei com dó de excluir totalmente algumas ideias compartilhadas por lá, então resolvi registrá-las aqui.

Nome: Ailime Kamaia Sobrenome: Procrastinação

 

O ponto alto do dia foi encontrar uma notificação da @univ_positivo : “Favor estacionar corretamente” na minha bicicleta.

 

Minha mãe foi embora e sinceramente…ufa! As vezes cansa ter uma mãe dentro de casa!

 

Tô tão cansada que um cachorro podia dormir em cima das minhas costas e eu nem ia perceber! (baseado em uma história real e autobiográfica)

 

Quem precisa ir no boteco quando tem de janta ovo de codorna e salame? Morar só com pai dá nisso: dieta balanceada…

 

Não acredito em namoro e nem em ensino à distância. Duas coisas que pra mim só funcionam no modo “presencial”.

 

Até acho legal essa história de GEMTE linda da Social Media FICAVAITERBOLO, mas uma hora esse mundo cor de rosa cansa…

 

TURISTAS: “O tempo mínimo para conhecer um lugar de verdade é a vida inteira”, ensina Ruy Castro.

 

Vontade de ir reclamar no PROCON desse povo que na foto é UAUUUU!!!, mas pessoalmente é ECA!

 

Dias cinzas e chuvosos assim pedem medidas drásticas: comendo achocolatado em pó de colher! =O

 

Queria estudar na Universidade Estadual do Pará, só pra falar “Eu estudo na UEPA!”

 

Recebo e-mail. Respondo e-mail. Espero e-mail. Recebo e-mail. Ahhh… era spam!

 

Preciso parar de viver para conseguir ler tudo que é relevante. Ou então, comer cogumelos e ganhar vidas extras, como o Super Mario Bros

 

Aquele momento, trágico em que vc percebe que colocou, a vírgula no lugar errado…

 

Tô realmente descrente nessa tal humanidade. Conheci duas pessoas pessoas que gostam de Zorra Total… será que há esperança?

 

Ai a Amy Winehouse morreu q pena, buábuá… Mas agora me explica porque tem uma “Emy” nos TT’s?

 

Porque cinegrafistas de programa de tv para o público jovem sempre tem mal de parkinson? Não suporto essas imagens tremidas e desfocadas.

 

Sabe do que eu gosto? Dicionário de sinônimos do word.

 

Tia Wiki diz que “A celulite aparece principalmente na região dos glúteos, coxa, abdómen, NUCA, e braços” / Celulite na nuca é tenso, hein!

 

O Twitter vai deixar saudade, afinal, ganhei promoções por lá, fiz e reforcei amizades, vi tantas ideias inteligentes compartilhadas, indicações de livros, textos, filmes… lembretes de provas, bobagens e piadas internas. Tweets respondidos retweetados, favoritados.

Mas uma hora tudo tem que terminar.

São cinco horas da manhã e o despertador está tocando. São cinco horas da manhã de um sábado, e além do despertador estar tocando, você sabe que precisa levantar. Mas está frio, muito frio! Lá fora a geada cobre a grama de branco e a neblina dificulta a visão. São cinco horas da manhã, está frio e você fez a burrice de ter ido dormir com um pijama de verão, de shorts e camiseta. Você prevê o frio que vai sentir ao abandonar cama, travesseiro e coberta.

Além do frio está cansado e com sono, pois trabalhou até tarde no dia anterior. Se pudesse, dormiria mais cinco minutinhos. Ou a manhã inteira. Mas é preciso levantar, lavar o rosto e sair. E antes mesmo de abandonar a cama você lembra que só vai voltar a encontrá-la dali a 19 horas. Vai ficar o dia inteiro longe dela e fora de casa.

Mas você se levanta, lava o rosto e sai. E está feliz.

Você tem um compromisso que que te faz acordar às cinco da manhã de um sábado e está feliz, mesmo com o frio e com sono. Você tem um motivo que faz valer a pena estar acordado.

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Conseguiu imaginar que compromisso seria este? Se não conseguiu, você tem um problema, porque todo mundo deve ter algo que o faça feliz, mesmo que exija acordar às cinco da manhã de um sábado muito frio.

Este motivo não vai te fazer levantar apenas nos dias ruins, mais importante, te fará levantar todos os dias acreditando que vale a pena estar acordado, estar vivo, estar sentindo. E esse é o motivo que justifica tudo, faz a vida valer a pena!

Se você é militante, ativista, defensor de algo, saia de si. Largue seu corpo, seus velhos hábitos, manias, estereótipos. Sinta-se livre para assumir novas personalidades. Sinta-se livre para ser outro. E isso não significa não ter personalidade! Significa apenas que quando você for lutar, você deve ser a sua luta, você deve se apropriar dela.

É preciso se ver como travesti, para entender as dificuldades que elas passam. É preciso ser negro, para saber quais são as discriminações raciais sofridas por estes. É preciso ser mulher para entender a diferença no tratamento desse gênero. Se colocar no lugar do outro permite entender melhor o outro. Alguns chamam isso simplesmente de empatia, eu chamo de desapropriação de si mesmo. Não basta se solidarizar com os dramas dos demais, é necessário se despir de si e se vestir do outro.

O grupo porto-riquenho Calle 13 faz diversas apropriações em Latinoamérica:

Soy…soy lo que dejaron
Soy toda la sobra de lo que se robaron
un pueblo escondido en la cima
mi piel es de cuero por eso aguanta cualquier clima
soy una fabrica de humo
mano de obra campesina para tu consumo
frente de frío en el medio del verano
el amor en los tiempos del cólera mi hermano
el sol que nace y el día que muere
con los mejores atardeceres
soy el desarrollo en carne viva
un discurso político sin saliva
las caras mas bonitas que he conocido
soy la fotografía de un desaparecido
la sangre dentro de tus venas
soy un pedazo de tierra que vale la pena
una canasta con frijoles
soy Maradona contra Inglaterra anotándote dos goles
soy lo que sostiene mi bandera
la espina dorsal del planeta es mi cordillera
soy lo que me enseño mi padre
el que no quiere a su patria no quiere a su madre
soy america latina
un pueblo sin piernas pero que camina

[Trecho de Latinoamérica]

Por isso encerro o post com dois convites:

1. Assistam o clipe de Calle 13 e;

2. Se desapropriem de si e deixem se invadir por outros (ao menos um pouco).

Um mini documentário sobre um garoto de nove anos que criou seu império. Com jogos feitos de papelão, Caine’s Arcade é o sonho realizado de Caine Monroy. Empreendedor, o menino resolveu cobrar dois dólares por 500 tickets “de diversão”. O projeto chamou a atenção do cineasta Nirvan Mullick, que organizou uma ação convocando pessoas a comparecem no empreendimento de Caine.

O vídeo é em inglês, mas a sensibilidade que Nirvan teve e o sorriso de Caine podem ser compreendidos em qualquer canto do planeta.

Sou cara-pintada, guerrilheira do Araguaia, feminista, negra, sem-terra.

Sou freiriana, socialista, abolucionista, homossexual.

Não fui  a campo lutar estas lutas, mas elas estão em mim.

Me nutro delas e batalho por mais educação, democracia, justiça, igualdade, direito das mulheres, à terra, à liberdade de expressão.

As minhas lutas dizem quem sou, me forjam, ajudam a construir o meu pensar.

E de todas os direitos, o mais importante é aquele que assegura que posso escolher por qual motivo vou levantar de manhã.


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