Perecível ao tempo

O (meu) som mais doce é peculiar

Posted on: 19/12/2011

Ailime Kamaia. Não bastava um nome complicado, minha mãe escolheu logo dois para batizar a segunda filha. “Aline? Maia?”. “Não! Ailime Kamaia!” Cansei de repetir a frase, assim como cansei de escutar a pergunta: “Mas o que significa?”.

Então, Ailime vem do francês, deriva de Aimeé e significa amada. Já Kamaia vem do ianomâmi e ainda não descobri o que quer dizer, apesar de já ter pesquisado bastante o significado. Essa é a resposta padrão para a pergunta que tanto escuto, mas com certeza posso alongá-la e completar a explicação.

“Na verdade não era pra eu me chamar Ailime Kamaia, e sim, Arima Kamaia. Arima também é ianomâmi. Mas a minha mãe esqueceu esse nome e em cima da hora lembrou-se do nome de uma modelo francesa, Ailime. Quem acabou com o nome de Arima foi a minha irmã mais nova, Arima Dandara”.

Nesse momento começo a discorrer sobre os significados do nome da minha irmã mais nova, depois pulo para o nome da mais velha, Maria Anahi. Por fim, falo de Rich-Nei (filho), meu irmão. Sim, é uma conversa, que muitas vezes se pretendia introdutória,  termina sendo longa. Mas garante a alegria de muitos ouvintes, posso afirmar.

As pessoas gostam de conhecer tipos com nomes incomuns. Tenho uma amiga que faz questão de pronunciar meu nome completo toda vez que me apresenta a algum conhecido. Ela se vangloria de ter uma colega chamada “Ailime Kamaia”.

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Olhares curiosos se voltam para mim quando pronuncio meu nome. Já estou mais do que acostumada a ter que soletrá-lo, a enunciá-lo pausadamente, a ser chamada de Aline ou Maia. Entendo todas essas pessoas, afinal houve um tempo em que nem eu mesma sabia falar Ailime.

Mas o fato de ser um nome um tanto diferente não impede que as pessoas tentem aprende-lo. Tudo é uma questão de hábito. As pessoas se acostumam a falar “Ailime Kamaia”, da mesma forma que se habituam a visitar a sogra. Nenhuma Ana Maria quer ser chamada de Mariana.

Meu nome é parte da minha identidade. Gosto de pensar que sou tão exótica, tão incomum quanto ele. Gosto de ser a única “Ailime Kamaia” porque gosto de me sentir única.

O documentarista Alan Berliner demonstrou a importância que um nome pode ter. Afinal, foi investigando “Alans Berliners” por aí que ele criou o argumento do seu documentário, “O som mais doce”. E o próprio título do audiovisual já deixa claro que não há palavra mais bonita para uma pessoa do que seu próprio nome. Sinais de egocentrismo? Prefiro pensar que não, que sejam sinais de amor-próprio apenas.

Não acho que o nome tenha o poder de determinar a vida de uma pessoa, mas a forma como essa pessoa se relaciona com sua alcunha ajuda a vislumbrar a personalidade dela.

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Ahhh. E como costuma acontecer com quem tem nomes compostos “estranhos”, sempre preciso explicar que Kamaia não é sobrenome. É nome, como o Maria, da tal Ana acima mencionada.

É, não é fácil ter um nome singular. É preciso paciência. É preciso aguentar piadinhas sem graça. É preciso soletrar tantas vezes quanto forem necessárias. Porém, é saber que você tem um nome único e que se alguém gritar na rua por você, vai ser só pra você.

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3 Respostas to "O (meu) som mais doce é peculiar"

Concordoooo (outra vez), somos duas que temos soletrar o nome SEMPRE!! Tenho q admitir q nem sempre gostei do meu nome, naquela época de escola onde as cças sao tao más!! Mas agora gosto msm, e olha q faz mais ou menos duas semanas disseram q o meu nome é mt feio (!!!) E olha q o nome da pessoa q me disse isso nao era grande coisa, se eu te dissese o nome da pessoa vc ia se matar de rir!! Mas qdo eu disse q nao era feio nao, e q tem um nome de um perfume de Cacharel mt parecido com meu nome (anais anais), já nao lhe pareceu tao feio. Ai essa gnt q se deixa deslumbrar por qq coisa q tenha algo de marca…

Ai, esqueci de dizer uma coisa q corrobora teu texto: qdo africanos eram trazidos pro Brasil para serem escreavizados, uma das primeiras coisas q faziam é mudar o nome de cada um, pq de alguma maneira isso “tira” a personalidade d cada um, sua história, como que “coisifica” a pessoa. Vc viu o filme Apocalypto? Qdo o malvado chama o herói Casi?

Ainda não assisti esse filme, mas vou marcar na agenda!
Sim, mudar o nome de alguém é tirar parte da identidade dessa pessoa.

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