Perecível ao tempo

Archive for novembro 2011

Ai, que bom seria se realizar os sonhos fosse tão fácil assim!
Talvez seja. O negócio é achar o próprio “Google StreetView”.

 

Não entendeu nada?

Assista o vídeo e comece a viver a fantasia!

 

O fato de um terço de projetos de leis, votados na Câmara Municipal de Curitiba, se referir à mudança de nomes de ruas é um indicativo de como anda (mal) a situação política do país. O cargo público parece ser visto apenas como um emprego. Porém, diferente de empresas privadas, na política nunca ouvimos falar: “satisfação garantida ou seu voto de volta!” E para piorar o consumidor, ou melhor, eleitor, na maioria das vezes não reclama.

Com um cenário assim precisamos encarar diariamente o descaso dos políticos, que fabricam leis que não serão cumpridas. Um exemplo é o caso das matas ciliares. Garantidas pelo Código Florestal vigente não são respeitadas e não é raro escutar denúncias de irregularidade. Uma proposta de lei feita pelo Ministério Público do Paraná sobre o uso de assentos preferenciais no transporte coletivo deve ter o mesmo destino, a amnésia coletiva. A ideia é que quem estiver sentado em um banco preferencial e não ceder o lugar para idosos e pessoas com deficiência seja multado. O Cadastro de Pessoa Física (CPF) seria o documento  de identificação para aplicar esta multa. Agora pensemos nos problemas desta lei. A frota de ônibus, apenas de Curitiba, conta com quase 2.000 veículos e há promessas de que aumente aproximadamente 30%. Quem fará a fiscalização no transporte coletivo? Se o Estado não consegue suprir a demanda de trâmites, vistorias e aplicação de penalidades já existente, conseguirá responder por uma nova responsabilidade?

Além destas questões, é de se ponderar se os gastos empregados na contratação destes fiscais não seria melhor empregado se fosse investido em educação. Afinal, o princípio de todos os males da sociedade brasileira parece vir daí. Um projeto educativo elucidando o Estatuto do Idoso e a Lei da Acessibilidade poderia ter um efeito mais duradouro. Também seria responsável por esclarecer à população o porquê da necessidade de reservar espaços para estes usuários.

Mas, no Brasil acreditam que tudo se resolve criando uma nova lei. A História mostra que não é assim. Os velhos problemas permanecem e sobrevivem a elas. O caminho é investir na educação e garantir a liberdade dos cidadãos de serem “mal-educados”. Foi assim que as crianças de Curitiba aprenderam a se-pa-rar o lixo e a não jogá-lo na rua, com dois projetos educativos. A “família Folha” e o slogan “Se-pa-re” até hoje são lembrados por muito curitibanos, então, que tal criar um projeto que ao invés de penalizar, eduque?

Ahhh, as utopias! O que seria de mim sem elas?

O que eu seria, não sei, só sei que não seria jornalista.

Sim, sou a moça boba que acredita que é possível mudar o mundo através de palavras. Escrevo porque creio que de minhas mãos sairá o texto que vai acabar com as injustiças do mundo, com a fome dos miseráveis, com as mortes impunes, com a roubalheira comum em Brasília e nos quatro cantos desse país.

Mas não escrevo apenas para realizar as utopias com as quais sonho. Escrevo porque há muita realidade para se contar. Há muita vida para se narrar. Tantos Josés e Marias espalhados por aí… É preciso penetrar nos rincões mais secretos e mostrar quão hercúleo é o esforço dos nossos Quasimodos.

Quero ser repórter porque também sonho em contar as histórias comuns. As histórias de quem vive, e pelo simples fato de viver, faz história. Gente que faz do dia a dia, sua guerra particular.

Quero contar contos singelos. Aqueles que dão esperança e inspiram a persistência, a resistência. Coisas simples e banais, que são mágicas, por serem simples e banais.

Ambiciono tudo isso, porque sou feita do mesmo pó que essa gente com qual sonho. Porque meus dias são de luta, dariam livro ou renderiam capa de revista. Porque já fiquei sem ter o que comer. Porque já fui despejada de casa. Porque já fui despejada do apartamento. Porque já tive que faltar aula por não ter o dinheiro da passagem. Porque tive os pertences mais íntimos confiscados. Porque já tive que dormir no chão gelado, tomar banho frio e implorar por um teto para uma desconhecida na fronteira.

Mas também porque o Hércules que há em mim já urrou e me fez digna de muitas conquistas. Sou a protagonista que provoca a reviravolta e sai vitoriosa da batalha que parecia incerta. Sou a garota que conheceu outros países, graças ao esforço do próprio trabalho. Sou a tola que obteve a façanha de entrar na universidade pública, mas pode optar pela particular, graças à bolsa do governo. Sou a errante que venceu quilômetros a pé, apenas para ver a “mão de Deus”. Sou a retirante curitibana que só se tornou retirante por voltar pra Curitiba. Sou a menina que já amou demais, e pagou caro por isso.

Sou só mais uma brasileira, e é isso que me faz sonhar ser capaz de contar a história de tantos outros brasileiros.

Quanto mais leio, estudo, fuço sobre o universo cinematográfico, mais gosto disso tudo. Parece uma coisa óbvia, mas não é.

Na disciplina de Cinema, na faculdade de Jornalismo, já no final do semestre lembro de ter ouvido uma amiga dizer: “Quanto mais entendo como os filmes são feitos, menos gosto deles”.

Para ela, a utilização das técnicas cinematográficas fazia com que se perdesse a “magia” da sétima arte. Um exemplo:  ela odiou saber que em muitas cenas em que aparece um personagem “conversando” com outro. Na verdade ele está sozinho e o diálogo é feito na montagem, alternando a imagem de atores falando sozinhos.

Como disse, comigo ocorre exatamente o contrário. Acho fabuloso que um ator sozinho consiga passar a mesma emoção de que se estivesse fazendo a cena em dupla. Acho espetacular o fato dos responsáveis pela montagem conseguirem coordenar as cenas, de forma que vejo diálogos onde existe monólogos.

Quanto mais entendo de Cinema, mais gosto, pois consigo entender a história em diferentes níveis. Consigo analisar não só a história e a atuação dos atores, mas também o processo de montagem (edição), escolha de figurinos, marcação de cenas… Enfim, entendo um pouco sobre a magia que é fazer cinema.

Quando opto por mostrar uma imagem, por filmar um plano, são possíveis várias leituras em diferentes níveis, e admito que a razão pela qual desejo essa imagem pode não ser necessariamente entendida por todos. Além disso, nem eu mesmo tenho sempre consciência do significado de minhas opções no momento em que as faço.

[Pedro Almodóvar, trecho de “Conversas com Almodóvar“, de Frederic Strauss]


%d blogueiros gostam disto: