Perecível ao tempo

Archive for outubro 2011

Houve uma geração de jovens que lutou contra a ditadura militar. Outra, saiu nas ruas com a cara pintada exigindo a saída de um presidente. E agora, quem é o jovem que fará o futuro da nação? Será que ele tem causas nobres? Será que luta por elas?

Entre o novo clipe da Adele, a reportagem em quadrinhos e o filme novo de Lars Von Trier lemos notícias sobre jovens que não entendem quem é diferente, que se perdem nas drogas, que não conseguem se relacionar com os pais e por aí vai…

Em contrapartida, há aqueles que sonham e lutam para tornar seus sonhos realidade. Os sonhos dessa nova geração não é apenas de ter uma vida melhor, e sim de fazer um mundo melhor.

E respondendo a pergunta que dá nome ao post, essa é a nova geração de brasileiros:

 

Nos olhamos. A aproximação é imediata e inevitável. Quando percebo, nossos corpos já estão numa distância indecorosa. Sinto toda a tensão do momento quando nossos olhos voltam a se encontrar. O dia não está quente, mas sinto ondas de calor. Seca, é assim que minha boca está. Estamos tão perto, parecemos contrariar a lei da Física. Agora ocupamos o mesmo espaço.

Olho para os lados, para baixo, para trás, para o céu, só não consigo voltar a encarar aquele olhar. Nossos corpos colidem, se tocam e voltam a se distanciar. E entre nós dois, o silêncio. A energia é tanta que a fala se faz dispensável. Tento interromper o momento, quebrar o que nos mantém tão próximos. Não consigo. Mil assuntos passam pela minha cabeça, quero falar algo. Esforço em vão, não existe o que falar. Mais silêncio. Mais toques. Há um ritmo que não se pode impedir, nossos corpos se afastam e se aproximam seguindo este compasso.

Decisão: me afasto ou o agarro! Me afasto. E volto a me chocar em seu corpo. Sim, é realmente inútil tentar a separação. Me convenço, devemos ficar assim, até o fim. Tento me movimentar, minhas mãos tocam as suas. Volto a me mexer, meu joelho bate em sua perna. Desisto, ficarei imóvel!

Uma novidade, sinto a presença de outro corpo. Me viro e confiro uma mulher estonteante. Ela se coloca entre nós. Me sinto traída. Quero sair dali, não vou ser testemunha disso. Mas ir pra onde? Não há pra onde ir. Se não há como fugir, vou medir minha oponente. Da cabeça aos pés a reviro com o olhar. Noto que sua camisa está amarrotada, a tintura de cabelo está desbotando e o comprimento de sua saia não parece “adequado”. Volto a me sentir superior. De novo sou a fêmea alfa do bando. Bando? Só agora percebo que há um bando a nossa volta, ameaçando minha soberania.

É hora de concentrar minhas atenções no alvo, nem preciso fazer muito esforço e já estamos nos aproximando novamente. Como numa mágica ou no final feliz de um conto de fadas, a minha principal oponente desaparece. Sei que a distância que nos separa é tão pequena que ele não pode pensar em outra pessoa a não ser em mim. Quase fecho os meus braços em torno do seu corpo, quase o tomo pra mim. Não quero parecer insegura, nem agressiva demais. É preciso paciência, progredir pouco a pouco, mas nesse bailado de passos lentos não saio do lugar.

“Me afasto ou o agarro?” Nada, não faço nada. Não há espaço para ações, minhas decisões de nada valem. Sinto que as minhas interrogações são as dele também. Um olhar. Sinto os olhos dele comendo os meus, suas mãos se aproximam das minhas, seu corpo cada vez mais perto do meu… Uma força abrupta nos separa. Como se estivéssemos no meio de uma manada desembestada, já não há mais o que fazer. Uma parede de vidro entre nós. Suspiro ao ver a distância aumentar. “Próxima parada estação Praça Rui Barbosa”. É. Acaba assim mais um dos meus amores passageiros, às seis da tarde de uma quinta-feira ensolarada.

Sempre fui contra a obrigatoriedade da leitura dos clássicos. Para mim, essa deve ser uma atividade prazerosa, e obrigar um garoto de 13 anos a ler um livro do século XIX vai contra esta ideia.

Batia o pé defendendo essa postura, mas tive que repensar isso tudo ao conhecer Machado de Assis.

Já tinha tentado superar Machado com 12 anos, não suportei.

Acostumada a ler livros para o público infanto-juvenil, o fundador da ABL e sua literatura pareceram um suplício para mim.

Anooooos mais tarde, determinada a passar no vestibular de uma universidade pública, vi que a história de Bentinho e Capitu constava na lista de livros a serem lidos.

Encarei o volume e quando percebi estava devorando-o!

Machadão não apenas me surpreendeu, como me envolveu na trama.

RESULTADO: Adorei ter descoberto esse grande escritor. E agora olho com muito mais carinho as listas de livros obrigatórios, e enxergo nessas listas a oportunidade de conhecer ou me forçar a ler livros que eu não leria.

A gente nunca sabe onde vai encontrar o escritor da nossa vida, né!?

Domingo.

Manhã.

Chuva.

Domingo de manhã com chuva.

 

Nada disso combina com passeios, mas me arrisquei a ir na Feirinha do Largo da Ordem (Curitiba, minha cidade) num domingo de manhã com chuva. E ainda bem que fui!

Entre sabonetes artesanais, mágicas e caixinhas de MDF, encontrei Hélio Leites.

Ri de suas histórias, me emocionei com suas poesias em forma de miniaturas de bailarinas e santos e voltei me sentindo melhor.

Pra quem ainda não conhece a figura, assista o vídeo abaixo.

P.s.: Assista MESMO, porque vale a pena!

 

Passear pelas ruas da capital argentina é comprovar muitos dos clichês que existem a respeito do povo portenho. A fama de galanteadores, vaidosos, exagerados e apaixonados por futebol é verdadeira, porém existem outras verdades a respeito de nossos vizinhos. Simpáticos e muito receptivos com os brasileiros, é difícil entender porque nós, tupiniquins, temos tantas rixas com los hermanos.

Adoradores do mate, o nosso chimarrão, é comum ver homens e mulheres carregando suas garrafas e cuias para todos os lados. Uma ida ao Parque Lezama (no bairro de San Telmo) comprova que até numa sexta-feira ensolarada a bebida amarga é bem-vinda. Observando os freqüentadores do parque também é possível notar outra característica dos bonaerenses, o amor pelos cães. Muitos cachorros passeiam a vontade, sem coleiras ou focinheiras, e até os de raças grandes andam livremente pelas calles da cidade. E ninguém reclama. Buenos Aires deve ser a única cidade do mundo onde colocam cartazes de “cachorro encontrado”. Num deles, a pessoa que achou o cãozinho avisava o dono que o animal seria bem cuidado até que pudessem resgatá-lo.

Os passeios portenhos muitas vezes incluem uma parada em uma livraria ou sebo. Pode até não ser verdadeira a famosa afirmação de que “apenas a Avenida Corrientes conta com mais livrarias que o Brasil inteiro”, porém é fato que nesta grande avenida é possível encontrar centenas de opções. Uma simples caminhada pode durar horas na Avenida Corrientes, pois é difícil resistir à tentação de entrar nessas livrarias. E se você visitar várias delas, uma após a outra, perceberá que não é único, muitos portenhos estarão “te seguindo” e poderão ser vistos várias vezes folheando livros em distintas lojas. E a variedade não é apenas de livrarias, pois o local também concentra inúmeros teatros e casas de shows. Próxima à “avenida dos livros” está o El Ateneo Grand Splendid, na Avenida Santa Fe. Presença constante em listas de “livrarias mais belas do mundo”, como as publicadas pelo jornal britânico The Guardian e pela editora Lonely Planet, esta livraria surpreende pela história e arquitetura. O El Ateneo já foi teatro e ainda hoje possui palco e balcões. Atualmente onde ficava o palco existe um café, e os balcões são charmosas salas de leitura para os clientes. As colunas e a pintura no centro do teto costumam chamar a atenção de seus freqüentadores. Enquanto metade deles vasculham livros, a outra metade tira fotos do local.

Outro local imperdível na cidade é o bairro de Puerto Madero. Nem tanto pelos famosos restaurantes que ali se concentram, mas pelo passeio feito pelos portenhos na Costanera Sur. Dentro da reserva ecológica da Costanera é possível observar o Mar Del Plata, rio que banha Buenos Aires. Valem lembrar que a reserva não existia até pouco tempo atrás, o espaço sofreu um processo de aterramento e plantas e animais foram pra lá transportados. No trajeto que margeia a reserva vários carrinhos vendem bondiola e choripan. Adorado pelos locais, o primeiro é um sanduíche com fatias de carne de porco, já o segundo é de lingüiça. Condimentos e complementos são adicionados a gosto pelo cliente, em geral, as barraquinhas oferecem uma boa variedade e se come bem pagando pouco. Ainda em Puerto Madero existem dois parques chamados Mujeres Argentinas. Amplos e freqüentados quase que exclusivamente por portenhos, o gramado convida para um cochilo. Os mais curiosos podem aproveitar para observar pessoas praticando esportes, namorando, tomando banho de sol ou simplesmente mateando. As ruas do bairro são batizadas com nomes de importantes figuras femininas na história argentina.

Para quem gosta de museus a cidade também é um prato cheio, pois existem para todos os gostos. Boa parte da produção latinoamericana contemporânea de artes plásticas já passou ou está no MALBA (Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires). As exposições costumam invadir espaços inusitados do museu, como terraço, corredores e bancos (sim, estes bancos para as pessoas sentarem). O museu em si possui uma arquitetura diferenciada e vale alguns minutos de observação. A algumas quadras dali está o Museo Nacional de Bellas Artes, com um acervo totalmente distinto do acervo do MALBA. Neste espaço o clássico é quem toma conta do lugar. Grandes nomes da pintura e da escultura se fazem presentes através de suas obras. Quem disse que santo de casa não faz milagre? Em Buenos Aires faz, o segundo andar do prédio é dedicado quase que integralmente aos artistas argentinos. Outra sala interessante é a de arte pré-colombiana, que conta com peças de mais mil anos. A história de parte da América do Sul antes do período de colonização está ali, artefatos indígenas ajudam a contar a História. A visita fica mais interessante aos domingos, quando há visita guiada. Outro que conta com visitas guiadas e possui temática bem diferente dos anteriores é o Museo Nacional de La História Del Traje. Roupas femininas e masculinas de várias épocas ajudam a entender as mudanças culturais e econômicas vividas no mundo.

A discussão sobre mudanças sociais não fica restrita às salas do Museu do Traje, está presente nas ruas Buenos Aires, no dia a dia dos portenhos. Acostumados a exigirem que seus direitos como clientes e, principalmente, como cidadãos sejam respeitados, fica fácil entender porque um movimento como o Madres de La Plaza de Mayo existe nesta cidade. A maioria dos país da América do Sul viveu uma ditadura militar em um momento histórico próximo, porém as mães argentinas foram as únicas a terem coragem de reclamar publicamente pelos seus filhos desaparecidos. O ponto de encontro é a praça em frente à Casa Rosada, sede do governo da Argentina. O mal que acomete os brasileiros, a falta de memória, parece não existir nos nossos vizinhos, pois o movimento já tem mais de trinta anos e conta com o apoio maciço da população. Assim como a vaidade, os exageros na fala e no gestual e o amor pelo futebol, esse é mais um clichê comprovado sobre a figura dos argentinos, a politização da sociedade.


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